domingo, 11 de abril de 2010
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NATASHA ESTELAR De Giba de Oliveira
Primeiro Oficial Galianni – (Gravando o que fala num pequeno aparelho. Veste um macacão branco e traz consigo uma arma e uma lanterna acoplada a ela juntamente com três lanterninhas a Laser, como se fosse a mira da arma. Há muita fumaça e uma luz intermitente ilumina a cena com um tom azulado.)
Data estelar 2.425. Estação Esférica de Pesquisas Astrofísicas Espaciais Maria da Graça em curso para a constelação de Orion com o objetivo de estudar as infiltrações nucleares das estrelas Delta um e Delta cinco na genética molecular dos habitantes desta área. Sou o Primeiro Oficial Capitão Galianni no comando interino da missão. O Comandante Coronel Viana esta morto, assim como quase todos os membros desta tripulação. Minhas suspeitas a respeito da co-piloto Tenente Natasha se confirmaram. Sou o único sobrevivente oficial desta nave. Acredito que o vazamento de gás experimental Citrônio 14 tenha causado efeitos alucinógenos na tripulação e em especial na Tenente Natasha que infelizmente eliminou todos os integrantes desta base. Quando penso que a minha querida e doce Vânia também esta morta... Grávida de 5 meses... O nosso bebê... Meu Deus... Isso já foi longe demais! Preciso impedi-la de continuar, tenho que encontrá-la... E matá-la...
O segundo Oficial de suprimentos Nascimento foi encontrado sem a cabeça e sem o seu membro reprodutivo. Seu mastro. Estava sem a rola... Coitado do Alencar. Quem esta ai?
Se já não bastasse a situação caótica em que nos encontramos ainda devo me proteger da criatura. Com toda essa confusão o hibrido réptil gelatinoso Aquarius Carnicatinusianos, codinome foquinha, escapou de seu cativeiro. Ele é o responsável pelas demais mortes e ameaça explodir essa espaçonave. Não vou permitir que isto aconteça. Devo encontrá-lo... E matá-lo...
Se eu não sobreviver espero que recebam esta gravação. Não me resta mais nada. E pensar que ainda ontem estávamos na balada quando tudo começou. Todo mundo na boate da nave... Que maravilha... A tenente Natasha com aquele baita rabão... Gostosa, filha de uma puta... Quem esta ai? Quem esta ai? Foquinha? Tenente Natasha? Quem esta ai? Vou contar até 5. Se vc não sair vou abrir fogo... 1...desgraçada, anda. Mostra a tua carinha...2...Sabe o que vai acontecer? Alguém vai acertar a fuselagem desta merda ...3...e a porra toda vai pelo espaço...4... Ta ouvindo? Natasha? Foquinha? 5... Parado ai! Parado! Vcs dois. Vem pra ca vc também. Fica parada ai caralho. Pro chão, pro chão os dois agora! Mão na cabeça. Tudo bem que vc não tem mão foquinha! Foda-se vc, eu heim...Não se mexe! Não se mexe porra! O que é isso?
(Aqui se ouve sons de tiros entre outras coisas. Ao fundo uma musica muito lenta e triste. Nova cena, quase como a primeira.)
Co-piloto Tenente Natascha - Data estelar 2.425. Estação Portuaria de Pesquisas Biologicas Espaciais Ana Maria Braga em curso para a constelação de Trianon com o objetivo de estudar as infiltrações de gases Citronio 13 e Citronio 14 no comportamento dos habitantes desta área. Sou a co-piloto Tenente Natascha Almeida no comando interino da missão. O Comandante Coronel Viana esta morto, assim como quase todos os membros desta tripulação. Minhas suspeitas a respeito do Primeiro Oficial Capitão Galianni se confirmaram. Sou a única sobrevivente oficial desta nave. Acredito que a manipulação e posterior vazamento de gás Citrônio 14, em pesquisa no laboratório tenha causado efeitos alucinógenos na tripulação e em especial no Primeiro Oficial Galianni que infelizmente eliminou todos os integrantes desta base.
Filho da puta acertou um tiro no Alencar...Caralho o que foi aquilo!? Nas idéias...E olha que pra acertar o Alencar não é fácil não. Mas vai se ferrar comigo, seu atiradorzinho de merda. Ta pensando o quê? Que pode sacanear todo mundo da nave e se safar na boa? Pode não cumpadre... Aí, se é na minha área neguinho lá fazia tu dançar bonito, seu Zé Mané! Zé Ruela! Seu arrombado do caralho! Galianni, Galianni, eu vou acabar com a tua raça meu querido... Pra quê isso cara? Tava todo mundo numa boa na balada e tu tinha que pirar né? Tinha que ir comer a Vânia no laboratório, tinha que abrir aquele cilindro de Citrônio 14 e soltar o Foquinha. Só fez merda seu Zé Ruela! Ta me ouvindo. Que foi isso? Parado! Parado eu disse! Vcs dois! Mãos na cabeça. Vc também Foquinha. Tudo bem que vc não tem mãos. Foda-se vc, eu heim?! Não se mexe. Não se mexe porra!
(Sons de tiros entre outros sons. Ao fundo ouve-se O DANÚBIO AZUL. Sob o infinito cósmico uma nave gira em torno do seu próprio eixo lentamente enquanto uma outra nave se aproxima Um astronauta flutua na vastidão seguido de um segundo e de um terceiro. B.O. Um computador descreve a situação da nave em um telão...)
Texto na tela: Data estelar 3.228. Missão espacial de avaliação e correção das estruras moleculares no entorno dos satélites naturais de Trianon e Orion.
Nave Brasileira modelo Tupinambá, classe Copacabana.
Computador de bordo ANDRADE 200 PLUS. Tripulação: Primeiro Coronel Matias da Costa e Silva Santos, Doutor em Ciências Astrofísicas Júlio César Trancoso e o Capitão da frota Portuguesa de Aparelhos Complicados Joaquim Ferreira de Sá.
Novo evento.
Recebimento de um pedido de ajuda vindo da Nave 3 Marias foi captado por Andrade 200 Plus.
Menssagem: (voz em off - Sons de uma grande farra. Música Bee Gees EMBALOS DE SÁBADO A NOITE. Alguém fala com dificuldade.)
Alô! Alô!Tá ouvindo aí? Tá gravando? Alô! Alôoouu! Caralho tá foda... tá fora de controle... Puta que pariu!
Preciso de ajuda. Por favor, se alguém estiver ouvindo esta porra. Socorro! Please Help, help please! Quê? Ah, vá se fuder viado!
(Sons de tiros e gritos)
Fim da menssagem.
Situação atual: Número de sobreviventes, desconhecido. Condições de navegabilidade da nave 3 Marias, desconhecida. Nível toxicológico no interior da nave, sem risco aparente.
Computador e bordo Andrade 200 Plus ativando modo de áudio...
Andrade - Modo de áudio ativado.
Matias - Andrade, consegue me dar uma leitura térmica do interior da nave?
Andrade - Negativo Coronel.
Doutor - Negativo?
Andrade - Positivo.
Matias - Vamos nos dividir e fazer uma busca. Eu vou para a proa. Doutor, o senhor vem comigo. Joaquim vc segue em direção da popa.
Joaquim - As ordens...
Matias - Joaquim, vc disse que conhece esta nave como ninguém...
Joaquim- Sim.
Matias - Conhece também o sistema operacional?
Joaquim - Especialmente.
Doutor - Preciso encontrar o laboratório Coronel. Segundo relatos, esta nave trazia uma espécie rara de criatura. Ela não pode em hipótese alguma sair desta nave.
Matias - Como quiser Doutor.Mas antes precisamos encontrar a ponte de comando...e tentar compreender o que aconteceu aqui. Senhores...
TRABALHOS ARTE TEATRO BALÉ POESIA
Companhia ARTEATROZ apresenta
A VOLTA DO REVOLTADO
Pseudopsicodrama de Giba de oliveira
AO ENTRAR A PLATÉIA JÁ SE DEPARA COM O DIRETOR E SUA ASSISTENTE JUNTO A UMA MESA NO CENTRO E A FRENTE DO PALCO ONDE CONVERSAM E ARRUMAM UMA SÉRIE DE PAPÉIS. APÓS O TERCEIRO SINAL...
Diretor – Boa noite a todos. Espero que estejam todos muito bem e a vontade. Gostaria que vocês se sentassem o mais confortavelmente possível.
Eu me chamo Leandro e hoje serei o seu diretor de cena. Esta é a minha ajudante, Ana Luiza, que vai nos dar a honra de trabalhar conosco nesta noite. Boa noite Ana.
Ajudante – Boa noite, Léo. Bom, para quem ainda não entendeu o que está acontecendo e o que ainda vai acontecer aqui, é bem simples: Propomos trabalhar em conjunto com vocês o que se convencionou chamar de Teatro Espontâneo.
Diretor – E o que vem a ser o Teatro Espontâneo? Alguém sabe?
Pois bem. O Teatro espontâneo surgiu há pouco tempo, portanto é um evento recente, e é oriundo do chamado psicodrama, ou, teatroterapia, que tem em Roberto Moreno o grande expoente desta matéria.
Ajudante – Nesta noite vocês serão os autores, intérpretes e testemunhas dos acontecimentos que se desenrolarão neste palco.
Diretor – Contamos ainda com a colaboração. E note-se, colaboração aqui tem um significado da mais alta importância para que tudo flua da melhor forma possível. Mais voltando: Contamos com a colaboração do nosso amigo, Giba na mesa de luz e também da Carolina que vai operar a nossa sonoplastia.
Ajudante – Então vamos começar pelo básico. Agora me retiro e assumo o papel de atriz.
Diretor – Obrigado Ana.(Para a platéia) Enquanto nós fazemos o nosso papel. Devo perguntar a vocês quem daqui gostaria de participar no palco, como elenco. Apenas 8 pessoas (dois serão vasos). Vamos lá... Pois bem. Deixe-me ver: Você.
Você. Você e você. Venham aqui.
Você pode vir também.
Você. Não, você ao lado.
E você também pode vir. Muito bem.
Muito bem. Estão todos aqui. Perfeito.
Você, como se chama?
Thomas – Thomas.
Diretor – Já fez teatro alguma vez?
Thomas – Já.
Diretor – Opa! Então temos um ator aqui.
Thomas – Mais ou menos...
Diretor – Mora aonde?
Thomas – Na barra.
Diretor – E você?
Victor – Meu nome é Victor.
Diretor – Já fez teatro?
Victor – Nunca.
Diretor – Gosta de teatro?
Victor – Um pouco só.
Diretor – Um pouco só. Muito bem. E você?
Rodrigo – Rodrigo.
Diretor – Rodrigo?
Rodrigo – Sim.
Diretor – Rodrigo, fale alto, por favor...
Rodrigo – Meu nome é Rodrigo.
Diretor – Regrinha básica: Todos devem falar alto e claro para que todos da platéia ouçam o que vocês dizem. Ok?
Rodrigo – Ok...
Diretor – Ok?
Todos – Ok!
Diretor – Certo. Estão nervosos? Não? Só um pouquinho? Ta legal... Vamos fazer o seguinte: Vamos fazer um aquecimento. Aí todos vão se soltar. Vamos lá?
Vocês da platéia também podem acompanhar se quiserem. É simples. Vamos lá, todo mundo!
Faz uma série de aquecimento simples.
Diretor – Ok! Vamos adiante? Estão prontos? Não se preocupem, tudo sempre acaba bem... A menos que alguém tenha comprado tomates. Alguém comprou tomates hoje? Não?
Então fiquem tranqüilos. Respirem fundo e relaxem. Ótimo!
Muito bem! Agora eu vou pedir para alguém da platéia me contar uma estória. Uma estória que tenha marcado a sua vida. Vamos lá. Alguém? Você. Por favor, seu nome?
Ana Lua – Ana Lua.
Diretor – Pois bem Ana Lúcia, conte-nos sua estória.
Ana Lua – Ah, não! Deixa pra lá...
Diretor – Não quer contar? Não precisa ter vergonha não, pode contar. Não quer? Tudo bem. Quem mais quer contar uma estória para nós? Você?
Ana Lua – Eu conto. Eu conto.
Diretor – Ok. Como você se chama?
Ana Lua – Ana Lua.
Diretor – Ana Lua é apelido não é?
Ana Lua – Não.
Diretor – Como é o seu nome?
Ana Lua - Ana Lua.
Diretor – Pois muito bem, Ana Lua. Qual é a sua estória?
Ana Lua – Na verdade é a estória que a minha Tia conta e que aconteceu com o filho de uma amiga dela.
Diretor – Qual o nome desse rapaz?
Ana Lua – Telomar.
Diretor –Telomar, certo. E o que houve com ele?
Ana Lua – É meio trágico.
Diretor – Como trágico? Ele morreu?
Ana Lua – Morreu. Ele, a mãe, o pai...
Diretor – Nossa que absurdo!
Ana Lua – É. Ele era meio doido.
Diretor – Doido? Por quê?
Ana Lua – Ninguém sabe ao certo.
Diretor – Bom. Parece uma boa estória. Como começa?
Ana Lua – É tudo muito estranho, mas eu acho que começou com uma briga com a namorada.
Diretor – Como é o nome dela?
Ana Lua – A Leia, coitada. Era. Ela também morreu.
Diretor – Mas isso é um filme de terror.
Ana Lua – Parece. Mas aconteceu mesmo. Ele e a família dele moravam num morro aqui no Rio. O pai dele era um dos chefões do tráfico.
Diretor – Ela era filha do tal chefão?
Ana Lua – Do seu Abel? Não era não. Era filha do seu Popó.
Diretor – Popó? Sugestivo esse nome.
Ana Lua – Ele era pai da Lea e do Léo também.
Diretor – Léo irmão da Lea, ok! Quem aqui no palco vc quer que faça os papéis dos namorados?
Ana Lua – Esse moço ali pode ser o Telomar. E aquela menina ali pode fazer a Lea.
Diretor – Perfeito. Então vocês podem se vestir aqui com esses figurinos. Podem escolher a vontade. Nós trouxemos várias roupas. Escolham por favor. Temos aqui também vários adereços. São todos seus...
Quem mais pode fazer o quê?
Ana Lua – Aquele cara lá pode ser o seu Abel e esse outro aqui o amigo do Telomar. E você pode ser o outro amigo.
Diretor – Mas quantas pessoas existem nessa sua estória?
Ana Lua – Ah, sei lá! Umas 10 pessoas...talvez mais.
Diretor – Caramba! Vamos fazer o seguinte: vocês todos vão fazer vários papéis, certo? Bom. Vamos à primeira cena. Vocês dois aqui são os namorados que brigam. Por que eles brigam?
Ana Lua – Ah, não sei. Parece que ele estava doidão...
Diretor – Ok. Vamos lá? Fiquem à vontade e improvisem.
Telomar e Lea
Lea – E aí, como está?
Tel – Bem. Bem. Bem.
Lea – Deixa-me ver... Você me mandou flores.
Tel – Eu não. Nunca te mandei nada.
Lea – E isso, o que te lembra? (mostra uma flor de plástico).
Tel – Que é que eu faço? (Diretor meneia a cabeça e gesticula para ele ir adiante)
Lea – Como assim?
Tel – Você é muito linda...
Lea – Obrigada. Diretor – Essa luz não é boa Giba. Que tal uma outra cor...rosa...
Tel – Vc é fiel? Já me traiu?
Lea – Mas o que vc quer dizer com isso?
Diretor – Bom. Uma música!(“A Liberdade é Azul” Trilha)
Tel – Não te amo mais...
Lea – Meu Deus.(Pausa na pausa da música.) Vc está me decepcionando.
Diretor – Pára! O que vc acha Ana Lua? Como está?
Ana Lua – Acho que ele pode ser mais enlouquecido!
Diretor – Mais louquinho...acha que consegue?
Tel – Vamos ver...
Diretor – Com a mesma luz. Música baixa...atenção...foi!
Tel – Sai daqui. Eu não te quero mais! Eu não quero ter um filho contigo nunca. Eu sou um cara legal, sabia? Eu queria nem ter nascido da minha mãe. Eu, meu orgulho, minha vingança, minha vida. Eu sou um filho da puta, sabia? Vc não deve confiar em mim. Vc devia ir para do seu pai. Aliás onde ele está?
Lea – Em casa.
Tel – Então vai pra ele.
Lea – Ai meu Deus. O que houve com vc?
Tel – Vc quer casar comigo, não é? Mas eu não posso te dar nada. Maldito! Maldito! E vc é virgem? Como Virgem Maria? Eu vou ser sempre um filho da puta, Lea. Isso é uma bosta. Vai. Sai daqui. Volta pra casa do teu pai ou então sei lá, pra uma igreja. Mas não fica comigo não. Vcs são todas iguais. Mulher é tudo a mesma coisa. Depois de um tempo se transformam em monstros. Vai pra casa do seu pai! Tchau!
Lea – Mas vc está doido. Completamente doido.
Diretor – Muito bem. Muito bom. Parabéns aos dois. E agora o que acontece?
Ana Lua – Os pais trouxeram dois amigos de infância pra saber qual era a causa de tanta revolta.
Diretor – Como se chamam os amigos?
Ana Lua – Não lembro. Tinham nomes esquisitos. Sei lá. Um era um tal de Roza e o outro Guil...Guilde. Acho que era Gilde mesmo.
Diretor - Ok. Roza e Guilde conversam com o Telomar...Mas vamos mudar de luz. Uma coisa mais quente aqui...âmbar! Ótimo. Uma música para o início da cena, por favor Cabul...
Os Amigos de Telomar
Guilde – Fala Telomar.
Tel – E aí...
Roza – Como é que ta cumpadi?
Tel – E vcs. Tranqüilos?
Roza – Tranqüilidade.
Tel – Caralho! Eu não acredito...
Guilde – E então? Beleza?
Tel – E aí, quale a boa?
Roza – Não. Nada de interessante acontecendo.
Diretor – Vcs devem tomar um especial cuidado para não darem as costas ao público, senão fica complicado. Abram um pouco mais. Isso. Fiquem à vontade. Ajam com naturalidade. Deixem as palavras surgirem em suas bocas. Deixem fluir...
Tel – Então por que vieram parar neste lixo?
Guilde – Lixo?
Tel – Esta cidade é um lixo.
Roza – Nesse caso, o mundo inteiro é um grande lixo.
Tel – O mundo é uma lixeira com ratos e urubus de toda sorte. As coisas só são boas ou más se vc pensa de um jeito ou de outro. Pra mim o Rio de Janeiro é um lixo.
Guilde – Acho que foi vc que ficou maior do que a cidade do Rio de Janeiro.
Tel – Não. Eu poderia morar na Barra do Piraí e ainda assim me divertir, se não tivesse sonhos ruins.
Roza – A vida é feita de sonhos. Foi mau.
Tel – Um sonho não passa de uma sombra. Mas enfim. Por que vieram?
Roza – Pra fazer uma visita ao amigo.
Tel – Foram chamados? Ou trata-se de uma visita espontânea? Não vão falar nada?
Guilde – Mas falar o quê?
Tel – Sei lá. Qualquer coisa! Ta na cara de vcs que vieram a mando de alguém.
Guilde – Mas por que faríamos isso?
Tel – Olha só: em nome da nossa amizade, dos nossos tempos de infância. Quem chamou vcs?
Guilde – Pôxa...
Roza – Pegou pesado.
Tel – Fala. Pode falar.
Guilde – É. Ta certo. A gente foi chamado.
Tel – E eu vou dizer por que: Perdi completamente o tesão pela vida, pelas pessoas e pelos meus amigos.
Diretor – Realmente muito bom. Meus parabéns. Vocês estão pegando o espírito da coisa. Vamos à diante. E agora Ana Lua. O que vem a seguir. Depois disso, o que foi que aconteceu?
Ana Lua – Aí é que ta. O Telomar inventou de fazer teatro...
Diretor – Coitado.
Ana Lua – Ele gostava, sabe? Foi aí que eu acho que tudo começou, com o teatro. Um dia ele escreveu uma peça e chamou a família e os amigos para verem. Não sei ao certo como as coisas se desenrolaram. Mas o fato é que a partir dali, daquela noite, houve uma sucessão de acontecimentos que até hoje se fala lá no morro.
Diretor – Que tipo de peça ele escreveu? Como era o enredo?
Ana Lua – Parece que um irmão matou o próprio irmão pra assumir o comando de um morro e depois se casou com a cunhada, que a essa altura estava viúva.
Diretor – Uma tragédia. Muito bem. Vamos a ela então. Eu peço que os atores se preparem rapidamente e quando estiverem a postos iniciem a cena. Enquanto isso, vamos curtir uma musiquinha, porque como diz o ditado: Para nós toda à indulgência, para a tragédia a clemência de vossa alta paciência.
Teatro para o Tio Abel
Abel – Como se chama a peça Telomar?
Tel – A Ratoeira. É uma metáfora. O roteiro se baseia num fato verídico acontecido há uns anos atrás.
Abel – Espero que valha a pena. Afinal, ninguém aqui tem tempo a perder com baboseira.
Tel – Não, não. É apenas teatro. Os atores interpretam como se reconstituíssem um crime, uma cena. De resto, o que não falta no mundo é baboseira.
Gertrudes – Telomar, querido. Vem sentar comigo...
Tel – Não mãe, obrigado. O imã aqui me puxa para outro lado. Para Leia. Posso sentar ao seu lado?
Lea – Claro. Vc está bem alegre agora.
Tel – Posso encostar minha cabeça entre as suas pernas?
Leia – Pode.
Tem início a representação.
Lea – O que significa isso Tel.
Tel – Infortúnio. Velhacaria. Assassinato.
Lea – Gostei da pantomima.
Gertrudes – Eu não entendi muito bem, meu filho. O que vc quis dizer com essa representação?
Tel – O vilão envenena seu próprio irmão no jardim, pondo veneno em seu ouvido enquanto ele dormia. É tudo verdade.
Mais tarde ele casa-se com a mulher do outro.
Abel – Pois pra mim chega!
Gertrudes – Calma Abel.
Abel – Vamos embora daqui. Não quero mais saber disso!
Gertrudes – Vc está bem, Abel.
Abel – Gertrudes, esse seu filho agora passou dos limites!
Gertrudes – Ele também é filho seu.
Abel – É meu sobrinho...Saem.
Lea – O que está acontecendo?
Tel – Foge o viado.
Lea – Mas meu amor, o que vc tem? Por que não me fala nada? A gente precisa conversar. Eu sinto que vc está precisando de...
Tel – Cala a boca! Sai daqui e me deixa sozinho.
Popó – Minha filha. Vamos embora. É melhor deixa-lo.
Tel – Isso Popó. Leva a tua filha. Vai com ela pra junto do teu chefinho.
Popó – Vc dobre a língua quando falar do seu tio.
Tel – Um traficante assassino.
Lea – Papai, eu não sei o que fazer.
Popó – Vamos minha filha. É melhor sairmos. Esse rapaz não te merece. Saem.
Tel – Nesta noite tudo se resolve. Vou matar esse filho da puta. Ladrão. Assassino.
Sai Mãe e filho. Morte de Popó.
Gertrudes – Quem está aí?
Popó – Sou eu Gertrudes.
Gertrudes – Eu só queria saber por que tanta revolta. Por que ele faz essas coisas comigo.
O CRETINO E A FORCA
De Giba de Oliveira
Texto projetado:
EM UMA TERRA DISTANTE. MAS MUITO DISTANTE MESMO.
Sonoplastia: La Tarantella.
Texto projetado:
A PEQUENA CIDADE DE WENCESLAU PREPARA-SE PARA A EXECUÇÃO DE ARIORLANDO EDUARDO TERCEIRO, NOTORIO TRAPACEIRO, ASSASSINO, LADRÃO, PEDOFILO, TRAFICANTE, ENFIM, UM GRANDE FILHO DA PUTA!
POR SE TRATAR DE RéU CONFESSO, ARIORLANDO SERÁ EXECUTADO AO ENTARDECER CONFORME REGE A LEI, APÓS A LEITURA DE SEUS ATOS MONSTRUOSOS PELO PREFEITO DA CIDADE.
WENCESLAU é UMA CIDADE PACATA. TEM 277 HABITANTES E UMA ESTIMATIVA DE VIDA DE 140 ANOS.
SEU FUNDADOR, WENCESLAU NICOLAU ABDULAH FRANCISCO AINDA ESTA VIVO.
ESTA MUSICA QUE OS SENHORES OUVEM ESTA ERRADA.
NOSSO SONOPLASTA ESTA DOENTE E O IRMÃO DELE é QUEM ESTA OPERANDO A SONOPLASTIA DESTE ESPETACULO.
OS DOIS SÃO FILHOS DO NOSSO PRODUTOR E A GENTE NÃO PODE FAZER NADA!
APESAR DISSO TUDO OS TRABALHADORES CONTINUAM SUA OBRA.
EM WENCESLAU.
CONSTRUINDO O CADAFALSO PARA A EXECUÇÃO.
Prefeito – (entrando acompanhado de alguns estrangeiros) Meus senhores, eis aqui a nossa praça central. Aqui, neste local, foi fundada nossa cidade. E' aqui também que fazemos nossas reuniões, festividades e outras atividades sociais. Como bem podem ver estamos construindo o cadafalso para uma execução.
O Estrangeiro – Desculpe-me, senhor prefeito, mas quem será executado?
Prefeito – Ariorlando...um animal.
A Estrangeira – Animal?
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Prefeito – Sim senhorita. Trata-se de um assassino sanguinário, entre outras coisas.
A estrangeira – Meus Deus!
Prefeito – Estuprador, ladrão, homicida, pedòfilo, enfim um animal na forma de homem...
A Estrangeira – Ah!
Prefeito – Perdão...
A Estrangeira – Mas então é um ser humano?
Prefeito – E o que a senhorita pensou que fosse?
A Estrangeira – Um bicho.
Prefeito – Este homem é muito pior que um bicho selvagem senhorita. Como descreve-lo?
O Estrangeiro – Senhor prefeito. Obviamente os senhores farão um julgamento...
Prefeito – Julgamento? Claro que não! Ariorlando é réu confesso.
O Estrangeiro – Mesmo assim, o senhor não concorda que todos merecem ser julgados diante de um tribunal, antes de condenados a morte?
A Estrangeira – Um julgamento? Nossa que emocianante!!!!
Prefeito – Nossas leis são bem claras quanto a esse tipo de caso...
A Estrangeira – Eu sempre sonhei em fazer parte do juri. Serà que me permitiriam?
Prefeito – Um julgamento...em praça pùblica...
A Estrangeira – Jà pensou meu amor, um tribunal, e euzinha fazendo parte dele?
Prefeito – O povo reunido nesta praça...
O Estrangeiro – Imagino que o senhor ganharia muitos votos na pròxima eleição...
Prefeito – Um julgamento... Acho que de fato podemor ter um julgamento!
A Estrangeira – Que màximo! Posso fazer parte do juri?
O Estrangeiro – Meu amor, deixemos que eles proprios resolvam seus problemas...
Prefeito – Mas é claro que a senhorita poderà fazer parte do corpo de jurados! Somos uma democracia aqui. (para um dos operarios da obra).
Meu filho venha ca...
Operario – Pois não senhor Prefeito.
Prefeito – Qual é seu nome meu rapaz?
Operario – Otaviano, senhor...
Prefeito – O que?
Operario – Otaviano...
Prefeito – Muito bem garoto, me responda uma coisa. Quando é que esse cadafalso fica pronto.
Operario – Amanhã mesmo meu bom Prefeito.
Prefeito – Escutaram isso? Todos me amam porque dou a eles exatamente o que eles querem. Rapaz o que vc acha de termos aqui um julgamento?
Operario – Aqui?
Prefeito – Sim.
Operario - Na praça central?
Prefeito – E'.
Operario - Acho boa idéia...
Prefeito – Que maravilha! Meus amigos, ouçam todos. Eu, Godofredo Alfredo Francisco, prefeito desta cidade de Wenceslau, resolvo e faço saber a quem quer que seja o seguinte:
Amanhã, dia 22 de julho, data em que comemoramos o centenario de fundação de nossa cidade, aqui nesta praça central, sera' realizado o julgamento e posterior execução pela forca, de Ariorlando Eduardo Terceiro.
O julgamento tera' seu inicio as 16:00 horas e que se faça os preparativos para este importante evento que contara' com a participação da comitiva internacional, a qual nos da a honra de sua visita.
(Aplausos efusivos. De repente, toda a iluminação torna-se Cor-de-Rosa.
Silencio... Saem Prefeito e Estrangeiros)
Operario – Hoje atrasou quase uma hora.
Outro Operario – já' é a quinta vez esta semana...
Operario – Dizem que a muitos anos atras tudo escureceu e assim ficou durante meses.
Outro Operario – Crendice popular! E vc ainda da ouvidos. Alias, por que foi dizer que achava boa a idéia do julgamento aqui na praça?
Operario – Sou um homem do povo.
Outro Operario – Assim como o Prefeito?
Operario – Vc não ve que ele é um bom homem que so quer o bem de todos?
Outro Operario – E executar alguém em praça publica é fazer o bem?
Operario – Pelo menos vai ter direito a julgamento.
Outro Operario – Nisso vc tem razão. Resta saber que tipo de julgamento sera'.
Operario – Hoje eu a vi sentada na varanda de casa.
Outro Operario – E...
Operario – E ai nada. Disse “Ola'” e ela respondeu.
Outro Operario – So' isso?
Operario – Como, so' isso? O que vc queria que eu fizesse?
Outro Operario – Que chegasse junto! Convida para sair e racha ela no meio!
Operario – Mas vc hein? Ela é uma menina ainda...
Outro Operario – Ah, meu filho, eu estou por conta do caralho de tanto atraso.
Operario – já ouvi essa estoria antes...
Outro Operario – Sabe o que mais me irrita? Essa cor...
Operario – Eu gosto.
Outro Operario – Hummmm, vc é viado, fala pra mim. E' viado não é?
Operario – Cala a boca e vamos trabalhar...
Outro Operario – Ah...é biba! Ei, toma ai. (Joga um toco de madeira),Segura esse pau que é disso que vc gosta.
Operario – Já' pedi para vc parar!
Outro Operario – O que é? Vai encarar? Te racho no meio!!!
(Os dois se enlaçam numa luta corporal e rolam pelo chão. Black-out.)
CENA II
(Do outro lado do palco, um detetive florense fala ao gravador enquanto examina a cena de um crime. A luz é fraca, quase uma penumbra. Há um cadaver no chão.)
Detetive – O quarto é pequeno. Tem uma janela que da para a rua. Provavelmente por onde entrou o assassino. As cortinas foram arrancadas. No chão vejo um abajour quebrado com rastros de sangue, que pode ser da vitima.
A vitima é uma mulher, branca, caucasiana. 25, talvez 30 anos. Aparentemente não há traços de violencia sexual. Ela esta vestida.
Acho que se preparava para sair. Mas pode ser que estivesse chegando.
Sua bolsa esta' no chão e esta' fechada. As chaves do carro estão aqui também.
Há traços de luta corporal por toda parte. O telefone esta fora do gancho e bem proximo da vitima, o que indica que ela ainda tentou ligar para alguém. Ou não... E não.
Um momento. Estou ouvindo algo. E' um som estranho. Parece vir da esquerda. Há um corredor que da' para a cozinha. Existe uma outra porta aqui. Esta dificil de abrir. E' uma porta antiga. Esta bem escuro e o interruptor não esta funcionando. Vejo uma escada cheia de poeira que provavelmente da' para o porão. Esta' escuro demais e o cheiro é muito ruim. Há algo de podre neste lugar. O som parece ter acabado.
Existem muitas coisas por aqui. No alto perto do teto encontramos uma pequena janela que da para a rua. Abaixo dela existe uma prateleira que vai de um lado ao outro de todo comodo. Há varias garrafas de vidro cortadas ao meio. Aparentemente repletas de joias, ou mesmo bijouterias. Não consigo analisar direito porque estão cobertas por poeira e teia de aranha. São dezenas, talvez centenas de recipientes de vidro com objetos dentro. Aqui mais para a minha direita, na parte baixa, varias perucas e varias cabeças de manequins. Também posso ver algumas cadeiras e um grande espelho de corpo inteiro e ao lado dele varias araras com muitas roupas dependuradas. Vejo algumas mascaras. Há uma mesinha no canto do quarto com muitas caixinhas. São malinhas de maquiagem. E no chão posso ver alguns cartazes. Ao lado da mesinha encontra-se um velho toca-discos e também alguns discos antigos...Muito interessante...
(O detetive pega uma pequena redoma de vidro com uma luminosidade rosada. Do outro lado da cena, a luz surge igualmente rosa. Entram dois monges.)
SOBRE AS ESRELAS
Um pequeno texto de Giba de Oliveira
Ao começar a peça a platéia devera estar sentada e não mais será permitida a entrada após o inicio do espetáculo.
Rômulo e André entram e ficam parados olhando um para o outro como se aguardassem uma resposta. Ficam assim por um bom tempo.
Rômulo – E então... Vamos em frente. Ela esta esperando por vc.
André – Vc acha que estou pronto?
Rômulo – Não.
André – Ah.
Rômulo – Nunca estamos.
André – Maravilha.
Rômulo – Mas estamos sempre prontos para tudo. Somos capazes de tudo.
André – Jura? Já me sinto bem mais confiante...
Rômulo – O Ser Humano é uma obra fantastica que encontra saída para todos os seus obstáculos, quaisquer que sejam.
André – Se vc diz.
Rômulo – E também não.
André – Ah, meu Deus!
Rômulo – Entenda que vc é o seu maior mistério e os outros um mistério maior ainda. Ou não.
André – Ta... Ta bom. Já chega. Eu estou pronto. Vc pode ir andando na frente. Eu vou em seguida.
Rômulo sai. André fica ainda por alguns segundos. Depois sai também. Musica.
Narrador – Na pequena comunidade de Riachuelo todos tinham orgulho de serem atores diletantes. Fosse qual fosse a idade. Todos atuavam e vinham de famílias de atores. Ali nasceu Adamastor André Cicco. Viveu ali toda a sua infância e juventude. Adamastor, no entanto, dentre todos na comunidade tinha um problema gravíssimo. Por mais que se esforçasse, não sabia atuar. E tinha uma profunda sensação de incapacidade diante dos textos que lhe eram incumbidos de interpretar.
Ao contrario de seus amigos e parentes, que, já na mais tenra idade, desempenhava papéis de grande porte, Adamastor não se adaptava a rotina. Era um paria como diziam os mais velhos. Uma verdadeira desgraça na opinião de seu pai. Já quase na fase adulta foi preciso da intervenção de toda a sociedade.
Não ser um ator em Riachuelo era um absurdo.
Esse texto é recente? Que legal, tem bastante material, realmente histórico. Abraços, sucesso.
ResponderExcluirMuito bom seu trabalho.
ResponderExcluirQuero agradecer pelo gentil comentário em meu Blog. Creio ter conhecido tanto seu pai como avô, principalmente se trabalharam na Garcia ou Artex, pois trabalhei por 25 anos em RH. nas empresas. Em meu Blog se você clicar em colunistas: Carlos Braga Mueller, vai encontrar mais de 20 postagens sobre filmes inclusive Férias no Sul, ou então vá no pesquisa e coloque cinema.
Abraços
Adalberto Day cientista social e pesquisador da história em Blumenau